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About edgard

Doutor em ciências da saúde pela USP São Paulo. Intensivista e homeopata de formação com uma visão holística busca a saúde de seus pacientes de forma suave e permanente.

Pesado. Sépia succus

  • “Defunto quando tem quem carrega faz peso…”
  • “Cuida deste que já tá na tábua da beirada…”

Estamos agora dentro de outra instituição milenar, quase um arquétipo das organizações e, por isso mesmo, difícil de explicar. Tudo pesa nessas instituições. Processos complicadíssimos, decisões que contrariam a sua missão, falta de comando ou de controle, mau humor do corpo de funcionários. Cheguei a ouvir certa vez:

  • “O hospital seria o melhor lugar do mundo se não houvesse pacientes…”

Refletindo o desejo de estar só, esta frase se contrapõe ao objetivo pelo qual foi criada, o de estar com o outro. Com a finalidade de diminuir o sofrimento alheio, utiliza o reducionismo como estratégia equivocada de atuação:

  • “… Não, eu estou falando do enfartado…”
  • “… Pensei que fosse da apendicite…”

O modelo único do diagnóstico reduz o sofrimento dos familiares atônitos e a percepção dos médicos pela complexidade dos doentes. A simplificação ilusória das causas autoriza o controle do comportamento pelas drogas.

  • Doutor, o paciente está vomitando!
  • Faz um antiemético nele. O que está esperando?
  • Aquele abdômen não está evoluindo bem, vou levar o paciente para a UTI.
  • Não sei o que houve, pois a cirurgia foi perfeita…

Estamos diante de um sistema não linear, no qual pequenos estímulos levam a enormes diferenças de respostas. Durante sua sobrevivência ao longo da história, essas empresas costumam carregar uma estabilidade que as melhores gestões empresariais, caracteristicamente lineares, não demonstram. Estas últimas são mais previsíveis e mais lucrativas, mas a menor falha pode não dar respostas e determinar a sua extinção, o que é impensável quando lidamos com vidas humanas. É como posicionar dominós em seqüência linear. Sabemos que, ao derrubar o primeiro, teremos sempre a mesma resposta ao final, a não ser que algum falhe por mau posicionamento ou por qualquer outra variação no ambiente ou no estímulo. Não há UTIs, by pass, que possam dar continuidade ao processo. Sairia muito caro e modificaria a lógica dos negócios: o lucro. Sistemas não lineares, os hospitais operam com inúmeras linhas de frente (front offices), caracterizados pela diversidade do atendimento com diferentes especialidades, visando à maior segurança, custam mais, pois o que está implícito é o desejo de sempre vencer. Vencer a morte ou a dor é um conceito que submete os profissionais que ali atuam.

  • Vocês viram o Carlos, agora ele está na diretoria. Internação era sinônimo de qualidade pra ele…

A perversa inadequação do tratamento é conseqüência da perversidade da cultura, que vitima também os profissionais de saúde. Acreditando em internações sem propósitos clínicos e na quantidade excessiva de exames e procedimentos solicitados sem racionalidade científica, atuam sem limitar a interferência alheia. Mas que cultura é essa? Em nosso “saber” ocidental, o sintoma é considerado algo ruim e o alívio passa por uma relação de troca com a tecnologia. Estamos vivendo a época em que a lógica é a dos sólidos, em que só a panacéia dos equipamentos são armaduras suficientes para derrotar os “inimigos naturais”: as doenças. O que é pior: a relação de afeto passa pelo presentear.

  • Doutor, não agüento mais essas dores de cabeça!
  • Fique tranqüila que faremos uns exames: tomografia, ressonância e um ultra-som de crânio para observar seus fluxos cerebrais…
  • Está bem, doutor – respondeu a paciente, mais calma.

Foi quando um estagiário que acompanhava o médico, já fora do quarto, perguntou:

  • O doutor gostaria que eu a examinasse?
  • Não é necessário, os exames vão responder as nossas perguntas, afinal, está na cara que se trata de um “petit, um peripaque”, uma histeria, melhor dizendo.

O fracasso das relações humanas estereotipadas na atitude paradoxal é o fracasso da imaginação que recorre aos modelos e aos rótulos para diagnosticar, classificar, compartimentalizar, afastar e, por fim, enterrar. A confiança só existe nos sólidos representados pelos exames que, de antemão, sabidamente nada revelariam, pois tratava-se de uma doença dinâmica, não lesional e, nem por isso, menor. Foi quando, aos gritos, ouvi um auditor da empresa cliente sair do setor de contas médicas dizendo:

  • Estão maquiando as contas. Oitenta mil reais de antibióticos que nunca foram usados! Roubam e se deixam roubar? Não é possível isso!…

A confusão das contas apresentadas era proporcional à dissimulação com que víamos exagerar a gravidade dos casos para vender a complexidade dos tratamentos, tornando-os diferentes, únicos e, por isso, essenciais àqueles que não eram capazes de ver e de conhecer. Ao investigar a sombra de seus movimentos, observávamos a necessidade de prestígio que manifestavam e seu comportamento isolacionista revelava a estratégia para se destacar.

Quando gostamos de alguém, ficamos cheios de fantasias, idéias e ansiedades. Não temos certezas, pois estas só nos distanciam. Postura soberba não permite a aproximação e o conhecimento do outro e o que não se conhece se teme, odeia-se e se quer destruir para vencer. Não mais capazes de ver o mundo afetivamente, só competitivamente, essa postura perpetuada pelo sucesso financeiro que costumam ter transforma-os em vítimas contaminadas pelo desamor e pela frieza. Não encontram o conforto que só o carinho pode dar e odeiam ser tocados. Desamor como daqueles que deixaram para trás filhos, irmãos, pais e parentes, pela incapacidade de cuidar de seus familiares, pelo fatalismo de ver a vida como uma arena romana. Mantêm uma relação interessante com o destino, confortam-se ao atribuir ao mesmo um caráter determinista, pois dessa forma não se obrigam a questionamentos.

 

 

Poder: dissimulação; desejo: vencer; medicamento: Sépia.

Excepcional ou patológico? Mercurius solubilis

  • “Atentado a bomba destrói uma quadra em Israel, matando várias pessoas”.
  • “Padres pedófilos são expulsos…”
  • “Guerra mata mais inocentes que soldados…”
  • “Narcotráfico impede prefeitura de construir em favelas…”

Foram manchetes de jornais como estas que me fizeram pensar naquilo que chama a atenção da gente: o excepcional, aquilo que excede, transborda e, por isso, é notado. Porém, hoje em dia, nem tudo que é estranho à nossa natureza é levado ao médico, como percebi em outras manchetes:

  • “Empresa do ano, pela segunda vez, responde na justiça por crime…”
  • “Estrela da música pop é envolvida com assédio a menores…”
  • “Empresário bem-sucedido é assassinado, junto com a esposa, pela filha e seu namorado…”

Retrocedi no tempo e imaginei essas pessoas antes da revelação dessas manchetes. Figuras de sucesso, excepcionais. Ao mesmo tempo, veio-me uma frase dos tempos da adolescência quando a saúde física me prometia tudo que era imaginado: cuidado com o que deseja, que você pode conseguir… Conseguir, vencer, conquistar e dominar são poderes comuns à nossa volta, quando usados em si mesmo, como vemos nos grandes atletas, são sinônimos de superação, mas, quando usados sobre o outro, transformam-se em pecado mortal, imperdoável.

Voltei-me aos meus atendimentos rotineiros. O próximo a entrar em meu consultório trajava um distinto uniforme que não conseguia esconder seu cheiro ou mesmo limitar seus movimentos desengonçados:

- Ô, “doc”…

Seu desespero aumentava enquanto procurava saídas para ele:

  • Não sei mais o que faço com esta úlcera na minha perna… Não posso mais vestir minhas botas…

Atormentado pelos meus questionamentos, invoquei-os:

- Como?

  • Não sei, começou com uma feridinha e deu no que deu…

Inquieto com o tumor ulcerado que tinha em sua perna, foi logo se protegendo em sua patente:

  • Sou capitão-tenente da OM (organização militar) de abastecimento…

Referiu-se ainda a um sonho repetido que tinha e associou o mesmo a uma noite tranqüila:

  • Ô, “doc”, só consigo descansar bem depois que mato alguém no sonho e pode ser qualquer um, basta duvidar de mim…

Somando-se a essa história, o dentista que trabalhava comigo no ambulatório havia me contado que esse paciente não cuspia no escarrador após os procedimentos. Esbravejando que isso era frescura, engolia um sem número de amálgamas de mercúrio, resíduo de algumas restaurações, como se fosse o seu rancho. Fiz o diagnóstico toxicológico. Ao sugerir o tratamento, percebi de imediato a mudança de tom em seu rosto. Quando falei em homeopatia para tratar aquele repulsivo “brocotoma” em sua perna, fez cara de enganado, tonteando imediatamente a cadeira que o apoiava… Não preciso dizer que nunca mais o vi e quase fui “pro baileu”. Alguns boatos chegaram aos meus ouvidos pelo cabo que me assistia e parece que o sujeito arrancou aquilo com uma faca… Nossa senhora!

As manchetes não saíam da minha cabeça, pensava sobre as coisas que ouvia naquele ambulatório, sobre os heróis excepcionais que, se afastando da normalidade, trouxeram anestesia, na forma de insensibilidade e destruição sobre o caráter institucional desse movimento, e, então, pude entender mais sobre nós, sobre o país, sobre os governos ditadores a quem nos submetemos. Enfim, sobre toda essa herança. Em meio ao perdão, acenou dentro de mim a resposta: o excepcional é patológico. É como o menino gênio que só sabe matemática e atribuímos a ele honras ao mérito em geografia, história e, ainda, esperamos que nos ensine inglês. Dessa forma, se comportam as instituições gigantes que só são capazes de ver aquilo que é do seu tamanho, cometendo equívocos grosseiros.

As forças armadas, assim como todos os tipos de máfias e a própria igreja, são modelos excepcionais aqui estereotipados, mas que estão presentes em diversas empresas ou grupos menores, que compartilham dessas características. São manifestações extremas de controle sobre si mesmas, quer pelas regras, pela devoção ou pela consciência, respectivamente. Como traço comum, a fidelidade é mais importante do que a coerência. Frutos do monoteísmo, na crença em um único poder, sofrem ao acreditar que este poder vem de cima: do general, do chefe ou do Papa. Trabalham com a fascinação, pois isso, é excepcional. Zelam pela unidade e usam como instrumento a obediência, engrenagem para movimentar seu corpo conforme seus pensamentos. A hierarquia e os rituais são a tônica, recorrem aos invisíveis de sua cultura e à necessidade para sustentar seu patrimônio e sua atuação. Os gigantes são conhecidos pelo raciocínio lento e concreto, pela miopia, e sua burrice adulta ameaça a imaginação da criança. Isso caracteriza estruturas rígidas, excepcionais e milenares. Porém, é por não perceberem as coisas pequenas, como os resíduos de mercúrio que adoeceram o capitão, que se curvam à destruição. Afinal, foi um pé de feijão que salvou João e uma pedrinha, a de Davi, que matou Golias.

 

 

Poder: disciplina; desejo: dominar; medicamento: Mercurius solubilis.

Pra ontem, Medohrinum

Por que os pianistas não desenvolvem LER (lesão por esforço de repetição) com a mesma freqüência que os funcionários daquela seção? Foi a pergunta que fiz àquela funcionária da central de atendimento ao cliente, CAC como era chamada. Não estou falando daqueles pianistas do Congresso Nacional, que votavam pelos seus colegas e, por isso, foram assim apelidados pela imprensa, mas dos profissionais da música. Afinal, o pianista exerce sua função de forma mais intensa que essas profissionais do teclado. Seu tempo de dedicação é muito maior, ultrapassando as seis horas por dia da jornada de trabalho dessas funcionárias. Além da repetição incansável dos acordes que o treinamento diário de um músico exige. Foi por essa janela, a de uma funcionária com as mãos endurecidas, afastada há seis meses do serviço e com ligações especiais com a diretoria, que adentrei nessa empresa de assistência médica.

  • A instabilidade lá é um negócio impressionante, gerente não pára. Já apelidaram o cargo até de suicídio sem morte”.

As decisões são todas emergenciais, estamos sempre correndo atrás de um caso complicado… A sinistralidade não pára de subir… É tudo pra ontem, doutor. Noutro dia, peguei um dos donos chorando agressivamente, diante do chefe da emergência de um dos seus maiores hospitais, dizendo que não podia mais perder dinheiro. Vi a chefia lá da CAC, de dentro de seu aquário (sala de vidro), pegar o seu sapato, colocar em cima da mesa e ameaçar uma funcionária. Eu mesmo já fiz vários relatórios, mas nada que tenha mais de uma página é lido por alguém. Não há comunicação na empresa, o que é decidido lá em cima, só ficamos sabendo na hora de “assinar a promissória”. Nunca ouvi a palavra planejamento ser colocada em prática por mais de uma dupla de funcionários. O diretor não pára na sala dele. Noutro dia, foi até engraçado, pois ele se virou subitamente como se alguém tivesse cutucado suas costas. Tem gente no setor que vive com uma sensação de areia nos olhos. Acho que é por causa dos computadores. Às vezes, exagero nos detalhes: junta um dos donos da empresa, o diretor, o gerente, o supervisor e a atendente, todos resolvendo um mesmo caso, sem se lembrar de decisões anteriores de sucesso ou de processos previamente elencados. Parece que todo mundo chegou ontem à empresa. Ególatras machistas, mulher lá só tem vez quando fala e age como homem.

Conforme contava sua história, lembrava-me de uma lenda africana sobre uma frágil menina que queria se transformar numa guerreira poderosa e, para isso, saiu de casa muito jovem para capturar o feiticeiro que comia os homens de sua tribo, escravizando as mulheres que não paravam de trabalhar para atender aos seus caprichos. Esses não eram poucos e mudavam a todo o momento sem propósito. O que viesse a sua cabeça, aquilo que pudesse colocar em movimento, era a opção do momento que tinha para exercer seu poder e não sentir a dor. Continuei a ouvi-la:

  • Sabe, doutor, acabei me envolvendo afetivamente com um dos poderosos lá de dentro, o mais temido, por sinal, e o mais agitado. Está sempre de cara feia. Que mau humor!
  • Mas o que te atraiu nele? – sussurrei.
  • Mas isso é só de dia, à noite, ele é outra pessoa. Muito mais alegre.

A dor a que me refiro, na lenda, era de um espinho envenenado que se posicionava no dorso daquele malfeitor, colocado lá por membros da tribo como provação de coragem. Ninguém sabia mais disso naquela região, a não ser por um velho ancião, que já nem mais pertencia ao grupo encontrado por aquela menina, em sua peregrinação.

  • Já não sei como ajudar mais, ele é casado e não dá conta nem de seus quatro filhos, quanto mais de mim. Tenho é que me afastar dele, pois sinto-me culpada.

Foi então que me peguei aconselhando como o velho fez, na lenda, com a menina:

  • Tire o espinho envenenado.

Lançou-me um olhar surpreso, mas, após contar-lhe a história, retrucou:

  • Impossível, ele não deixa a gente se aproximar tanto assim, parece que anda encostado na parede, com o olhar para todos os lados.

Segui, então, com a explicação do velho:

  • É porque a dor a que foi submetido para a colocação do cravo envenenado foi tão grande que não permitiria a sua retirada, pois a sentiria novamente temendo a loucura. Por isso, é tão agitado para não abrir um flanco em sua retaguarda.

No conto, a jovem que queria ser respeitada um dia, uma guerreira, conseguiu tirar o espinho envenenado do feiticeiro. Os primeiros sinais manifestaram-se na natureza que retomou o ciclo da vida, a começar pela primavera, depois pelo verão, pelo outono e, finalmente, pelo inverno, trazendo para a região a estabilidade das estações do ano, antes açoitadas por incessante ventania. Seu tamanho diminuto, da menina, a ajudou a chegar ao espinho com mais facilidade, sem ser percebida pelo feiticeiro, assim como a paciente que pelo afeto operou sua alquimia, trazendo seu amor a uma consulta. Da mesma forma, fazem os transformadores de cultura numa organização: entram no jogo, aproximam-se do poder e, com um olhar submisso, tornam-se pequenos até ter o tamanho de um afeto, dessa maneira, penetram no coração da empresa, mudando os seus rumos para sempre. Conforme se submetia ao tratamento, deixava de lado o poder de submeter os outros ao seu momento, ao seu tempo. Senhor da tempestade, poder este que impedia a construção de uma empresa melhor, mais do que ninguém só desejava no início o prazer, mas na pressa só fazia ventar e nada construir.

Assim como o feiticeiro, não engolia ou matava os homens da tribo ou demitia os trabalhadores honestos, apenas os transformava em objetos obedientes. Deixava que acreditassem nisso, pois isso multiplicava o seu poder. Depois de curado, esvaziado de seu egoísmo e em vias de demitir-se, pois já não fazia o perfil da empresa, noticiou-me o encontro do verdadeiro amor: trazendo um convite de casamento com aquela que, agora já mexendo com destreza suas mãos, sorria ao seu lado. Tanto na lenda como nesta história, observamos a transformação da menina em mulher, do feiticeiro em doutor e deste doutor aqui, que vos fala, em aprendiz, pois perguntei novamente e, desta vez com resposta, por que os pianistas desenvolvem menos LER que as meninas do serviço de atendimento?

- Sabe, doutor, nós, atendentes, ao teclar as queixas emergentes e desamparadas do nosso cliente, as sentimos como se fossem nossas, por isso adoecemos, já o pianista, bem, só ouve a voz do seu coração.

 

 

Poder: mudança pelo tempo; desejo: crescimento desordenado; medicamento: Medohrrinum.

Imagem, silêncio e som. Staphysagria

Numa noite só, eu refletia:

Olho pro chão e meus pés ali estão.

Estendo o pescoço e vejo um planador…

À frente um vazio, quisera eu um desafio.

Mórbida semelhança o mar sem calor,

Amor sem furor, cirurgia sem dor…

 

Um passo adiante

E a imagem semelhante, apenas repetia…

Gestual insignificante

Que outrora amante

Agora paralisia.

 

Silêncio… Nem paz, nem tormento

Só expressa o sentimento

Da saudade, simplicidade.

Um convento,

obra da bondade

com o sofrimento.

 

Eis que de repente

pela fresta da oração

adentra em meu coração

que quase não sentia,

o sorriso flamejante do vulcão

fertilizante,

fingia que morria.

 

Meus pés me fizeram saltar.

Sabia que pra frente não iria.

Agora, em minha mente o planador

aplana a dor do que temia.

Viver sem euforia,

sem calor,

pois, enquanto escrevia,

ouvia uma canção de amor.

 

No dia-a-dia do meu trabalho, via:

  • Não consigo revidar à altura da agressão. Meu medo é me descontrolar e arrancar um olho de quem estiver lá do outro lado da linha. Mas, em vez disso, sinto-me mal e com vontade de chorar.

Estava eu no interior de uma agência de caça a CDs piratas, através de uma “superpaciente”, sim, super, pois fazia de tudo, inclusive ouvir reclamações dos “clientes”, ou melhor, dos “piratas”. Chegou com queixa de insônia que a fazia despertar às 4h da manhã, trazendo com ela uma colega, com idéias persecutórias:

  • Sou quieta, acho até que as pessoas são boas, mas não posso nem ouvir o telefone em casa que já penso que é uma ameaça ou seqüestro de algum familiar.

E continuavam a descrever aquele ambiente:

  • Ouço tantas barbaridades no trabalho e não devo dizer nada, pois pode complicar o processo.
  • Os cabelos de todo mundo na empresa estão caindo…
  • Tem uma menina lá que foi operada de apendicite. Sua ferida nem cicatrizou direito e já está de volta ao trabalho…
  • Tem gente com MBA, tendo de lidar com gente daquela classe…

Foi então que num tom secreto, mas altivo, uma delas disse:

  • A única coisa que me alivia é me masturbar quando chego em casa…
  • Estou ficando tarada, doutor? Estou? Prefiro isso a transar com meu marido…

Claro, pensei, e retruquei:

-         Você busca um alívio imediato, não a troca ou o prazer…

E ela continuava:

  • Já sei de várias colegas que foram até a diretoria pedir demissão, mas eles não aceitaram…
  • Noutro dia, ouvi dizer que, quando chega em casa e tem de alimentar a tartaruga que o filho ganhou, chora de dó do peso que a coitada carrega nas costas… Tá ou não tá ficando todo mundo doido?

O que há de semelhante entre a poesia apresentada primeiramente e a situação real vivida a posteriori é o retrato da indignação, do sofrimento de quem sente o poder do insulto e coloca-se distante sem expressar reação. Normalmente, observados em serviços de telemarketing e atendimento ao cliente, cujos rituais de respostas padronizadas desfiguram o ser e o serviço. Em contraponto, um desejo de criação, construção pura e digna e até inocente, manifesta-se nos currículos do pessoal, daqueles que, pela nobreza de seus ideais, estudaram e esforçaram-se para subir num pedestal solitário. Nesse movimento, negaram a mediocridade implícita do crescimento profissional. Crescimento sem fé, do poder, do dinheiro e da posição, pois quem quer que esteja em ascensão em um mundo que reverencia o sucesso deve ser suspeito, já que esta é uma era de psicopatia.

Essa empresa estava em colapso, não pelo que apresentara de resultado no ano anterior, mas pelo que viria a gastar com ausências de todo tipo, a começar pelos famosos “atestados de saúde”. Atendi também a chefe do departamento pessoal que me dizia que a pirâmide de crescimento da empresa era um tijolo embaixo e um triângulo em cima, pequeno, aliás. Essas criaturas lidavam com gente de “sucesso”, de dinheiro e de posição, gente que durante anos sem fiscalização reforçou a falsa crença de que o destino estava a seu favor e eles no caminho certo.

Um ano depois do primeiro atendimento e medicada homeopaticamente, observei que os insultos que aquela gente sofria pela desqualificação altiva a que se submetia transformaram comportamentos inocentes, de negação ou até de convicção onipotente pela turma de fiéis que desembainhavam as ações nobres de seus ideais, em comportamentos potentes, à medida que, pelo medo das retaliações, aumentaram sua fé.

 

 

Poder: insulto; desejo: creação; medicamento: Staphysagria.

Controladoria, Ignácia amara

  • Porra, eu já falei que não quero que mexam em minhas coisas! Cadê aquele desgraçado que eu mandei pagar aquela conta e ainda não voltou? Acho que vocês estão me confundindo com qualquer um! Comigo não!

Ao contrário do que podem estar pensando, não é desse chefe do departamento de pessoal, de um escritório de contabilidade, que, aos berros, dirigia-se aos seus funcionários, que vamos falar. Mas daqueles que, calados, ouviam os gritos desse que também era um dos sócios da empresa. Estamos falando dessas pessoas que, dos laços afetivos, fazem um cativeiro, colocando a necessidade acima da razão, transformando seus erros em tragédias.

  • Ajuda aqui, ela está pesada!
  • Doutor, ela começou a chorar e caiu no chão, desmaiada.

Sua face estava congelada, assim como sua disposição em reagir. Era uma das responsáveis pelo fechamento do caixa no dia de pagamentos dos funcionários. E por esses colegas foi trazida até o pronto-socorro.

  • Todos nós dependemos daquele trabalho, doutor.

Conforme seus colegas que a acompanharam até o local, todos estavam sob forte pressão, pois, se cometesse algum erro de cálculo, eram obrigados a repor o dinheiro de seu próprio bolso e havia ocorrido um grande desfalque nas contas.

  • Apesar de grosseiro, nosso chefe é uma pessoa justa.

A culpa assumida implícitamente naquela frase, sem que ninguém houvesse perguntado nada sobre a causalidade da turbulência, justificava o medicamento que seria empregado.

  • Tem gente com uma úlcera no estômago, outros com infecções de garganta de repetição, tem horas que a repartição fica vazia com tanta gente no médico.

Depois dessas observações, ficou claro que se tratava de uma doença epidêmica que contaminara a todos, assim como a paciente que chegou carregada. Aos dias que se seguiram, um após o outro, murmuravam-se queixas que, somadas, confirmavam o diagnóstico que paralisava a empresa. Ao mesmo tempo, ouviam-se na ante-sala alternâncias de humores de pessoas que, quase sem conseguir respirar de tanto rir, diziam:

  • Não posso freqüentar hospitais e enterros que fico assim… Quá, quá, quá…

Só tinha visto tais reações num grupo de teatro que freqüentava. Toda vez em que chegava a hora de fazer a encenação só se ouviam risos histéricos e incontroláveis. Foi então que decidi usar essa ferramenta para tratar do restante que se encontrava no local. Fui rindo também e pedi:

  • Mais alto, agora só pode falar sorrindo…

Sorrir também é contagioso, assim como chorar, e eis que, pela lei do semelhante, curando o semelhante, os nervos foram se acalmando e a paz se restabeleceu.

Há circunstâncias em que o medo toma conta da vida e, quando essa contradição se apodera de nosso espírito, temos de perceber que alguma coisa está errada. O medo de perder o emprego que aquela gente tinha era proporcional ao sofrimento a que se submetiam. O poder da humilhação transforma desejos gigantescos de expressão em espasmos sentidos fisicamente:

  • Doutor, tenho um bolo na garganta que não consigo tirar!
  • Não consigo ter relações sexuais com meu namorado, que tranco tudo!

Estamos lidando com uma situação em que tanto o desmaio como as contrações, ao contrário de histeria que estamos acostumados a diagnosticar, é um processo transformador do jugo da necessidade na escuridão dos pensamentos, convertendo todas as emoções para o íntimo de seus sonhos:

- Doutor, sonho colorido toda a noite, desde pesadelos até que sou um pássaro…

Vitimados pelas mesmas circunstâncias, outros, sem remorso, sorriem compulsivamente. Mas todos, sem exceção, anseiam pela liberdade.

 

 

Poder: humilhação; desejo: liberdade de expressão; medicamento: Ignácia amara.

O Bote, Lackesis trigonocephalus

A partir deste capítulo, resgataremos a nossa visão sobre saúde comunitária, mostrando como determinados conceitos podem atuar de forma tão eficaz como ocorreu nas epidemias infecciosas da Idade Média. Também abordaremos como essa forma de contágio, que se dá pessoa a pessoa, pode ser tão devastadora quanto a dengue, a febre amarela e outros males que açoitaram e ainda maltratam nossa gente. E, ainda, como a homeopatia com sua ação peculiar, somente em pessoas sensíveis, pode nos servir não só individualmente, mas também a ecossistemas de relação. Mostraremos que determinados grupos adoecem apenas por serem suscetíveis a determinadas formas de poder, cujos conceitos vividos por todos em determinado momento nos atingem de diferentes maneiras. É como se estivesse num bote descendo um rio, em que a elevação da cabeceira do barco corresponde à imersão da popa, sacudindo as pessoas que ali se encontram. Umas refletindo o desequilíbrio intrínseco da situação não suportam e caem, outras se arranham e algumas nunca mais andarão de bote novamente. Essas maneiras diferentes de reação, somadas, constituem arquétipos de medicamentos homeopáticos, perfis patológicos ou gênio epidêmico que, se analisados e tratados por nós, podem significar um avanço de saúde da população contaminada. Os capítulos seguintes vão expor casos de verossimilhança, aos quais tive a oportunidade de conhecimento, por meio do atendimento individual que fiz em meus pacientes.

Criadora e criatura – uma entrou muda e a outra mais parecia um radinho de pilha:

  • Vocês viram, vocês viram? O ganhador da loto mora aqui!

Aqui era uma cidadezinha de mais ou menos mil habitantes, onde o vento faz a curva, como se dizia antigamente. A menina não parava de falar, discurso inteligente, expressões e vocabulário de gente grande. A criadora entrou calada com olhar desconfiado, imaginando que ali já pudesse estar o abonado vencedor. A notícia espalhou-se rapidamente pela cidadezinha e não tardou a começarem as especulações:

  • Aposto como é o seu Tibúrcio da farmácia…
  • Que nada, esse já é endinheirado, Deus não iria presenteá-lo duas vezes.

A febre logo se espalhou e não tardou a aparecerem as brigas e os candidatos.

  • Agora é a minha vez, vou calar o bico de todo mundo, pague aí uma rodada dupla de “oldeight” pra moçada…

Não tardou a se aproximar o gerente da agência do Banco do Brasil, para conhecer o afortunado que ainda não havia se apresentado. Sem falar nas “quase donzelas” que já se esmeravam em lançar seu charme multicor:

  • Meu cabelo, eu quero bem louro…
  • Trate de pintar minhas unhas com as cores da moda. Ameixa, é claro…
  • Eu quero aquele vestido vermelho ali…
  • Bem decotado, hein! Não gosto de nada me pegando no pescoço!
  • Olha aqui, se eu te pegar jogando o charme para ele de novo, eu te mato!

O ciúme e a desconfiança imperavam, as amizades eram terminadas em poucas palavras, entrelaçar de olhares se misturava à orgia que se esculpia atrás das portas. Valia até feitiço para encontrar o maldito, aquele que tirara a paz daquela pacata cidade. Assim como as serpentes que desejam tecer os seus destinos, sofriam todos o poder de uma promessa não cumprida que, mesmo nunca prometida, mas imaginada, arrancava lentamente a saúde dessa gente.

Não demorou para que o pequeno posto de saúde batesse seu recorde de atendimento. Cheguei a ver uma mulher indo para a pequena sala de cirurgia com diagnóstico fechado de apendicite aguda, até que uma mancha de sangue, sem que fosse iniciado o corte, sutilmente por debaixo das cobertas, revelou a loucura e um grande desconforto na sala:

  • Ela está menstruada.

As dores de cabeça também não deixavam por menos, exigiam não menos que tomografias computadorizadas e, em alguns casos, ressonância magnética. O prefeito acionou a polícia para encontrar o dito cujo, responsável pelo déficit de caixa daquele mês, pois esses exames só eram realizados na cidade vizinha e a enfermidade era tamanha que os pacientes dependiam de ambulância UTI para transportá-los.

  • Minha filha não pára de vomitar, acho que é uma virose.
  • Amiga da Lite, disse o doutor sobre aquele caroço na boca do João! Essa fofoca está me sufocando…

E assim continuaram os transtornos, em sua maioria nada que tenha lesado o corpo, a não ser por aqueles já doentes que pioraram ainda mais seu estado de saúde ou por outros que ficaram com uma impressão tão forte do ocorrido, que decidiram abandonar todos os bens materiais e viver pregando o amor e a compaixão. Desses tenho algumas notícias, dez anos se passaram e uma cartomante famosa, forjada naquela mesma época, disse-me que já havia constatado o óbito de pelo menos quatro.

Assim, temos a doença de hoje, rica em sintomas, pobre em exames com diagnóstico explícito, de alta morbidade e desconforto, múltiplas causas, imperceptíveis ao próprio sujeito e que, sem intervenção, com o mesmo fim das demais.

A propósito, nunca se descobriu o nouveau riche, ou melhor, especula-se que aquele bilhete foi encontrado com um dos anões do orçamento, lá no Congresso Nacional.

 

 

Poder: traição; desejo: seduzir; medicamento: Lackesis.

Como escolher o melhor médico e o melhor hospital?

É comum observarmos escolhas baseadas na marca. As marcas trazem um resumo, uma imagem, um significado agregado. Mas desde que inventaram o “marqueteiro” que as marcas sofrem algumas distorções da realidade. Apropósito, qual é o hospital que investe em aprimoramento contínuo de seu pessoal médico? Sequer são funcionários daquela instituição em sua maioria. Se orgulham em dizer que são hospitais abertos receptivos a todo profissional que queira internar seus pacientes, se isentando assim de qualquer compromisso com gestão. Alguns ainda selecionam os melhores currículuns, mas quantos currículuns ou indicações não passam de auto promoção tombando na primeira avaliação de suas chefias… O fato é que a instituição hospitalar ganha com a não gestão! Ficar mais tempo internado aumenta a taxa de ocupação hospitalar. Abusar da solicitação de exames, material e medicamentos aumenta a receita da instituição e ilude o paciente que acredita na parafernália… Afinal, de que estamos falando? De Shopping Centers ou nosocômios? Em tecnologia de produto ou tecnologia de processo? Do que vender ou de como intervir? Já não é de agora que o mercado despeja produtos, novidades, sem uma avaliação de processo criteriosa. Indicá-los para depois baratea-los e só então entende-los… Na história brasileira já ouvimos coisa parecida: “fazer o bolo crescer, para depois dividir”… É como funciona! Não há crivo do fornecedor ou da instituição promotora, o hospital. De fato estes artefatos agregam uma imagem de modernidade imprescindível aos profissionais e instituições que só se preocupam em trabalhar a marca e não seus conteúdos. São os “marqueteiros”de plantão!
Então como avaliar? Avaliar é julgar e julgar é dizer sim e não. Vivemos um momento político que dizer não só traz problemas e exclui os autores dos grupos e instituições. Sendo assim, seguimos dizendo sim… até que Deus ou a vida nos diga não… e ela nos diz…
O diligente maior da saúde do paciente é o médico. O discurso hipocrático de que o médico deverá limitar a interferência alheia, cabe não apenas a familiares leigos onipotentes, mas, há meu ver, também a outros médicos menos atentos com o resultado final. Isto se revela especialmente quando falamos de pacientes graves:
O Sr Newton, na UTI por uma função renal prejudicada agudamente. Internado no melhor hospital, com os melhores médicos e filho de médico, estavam todos crendo que a causa deveria ser um câncer. Os apelos do filho médico para iniciar imediatamente um tratamento, pois o que estava em jogo era o rim do paciente, não foi atendido sem antes submetê-lo a uma biópsia para melhor definir o diagnóstico. O que é uma conduta dita correta, se não fosse pelo fato desta biópsia levar uma semana para expor seu resultado. Não houve o cuidado nem do cirurgião, nem do oncologista, com títulos no exterior, em exigir uma biópisia por congelação, procedimento este que mostraria o resultado ainda no centro cirúrgico, possibilitando a introdução de um tratamento que poderia salvar seu rim e sua vida. Uma vez com insuficiência renal, este paciente se submeteu a diálise. Antes da introdução do procedimento, novamente o filho médico questionou o fato de iniciarem a diálise pela máquina com cateter venoso ao invés de fazer a diálise peritoneal, procedimento este mais simples, mais barato, porém mais trabalhoso para os profissionais envolvidos. Por não haver nenhuma contra indicação formal a hemodiálise, eleita pelos médicos assistentes – a máquina de última geração – o filho médico do paciente se calou, posicionando-se eticamente em seu lugar de filho e outorgando a decisão a quem estava no papel de cuidador. Duas semanas após este paciente faleceu por uma trombose provocada pelo cateter da hemodiálise. Não obstante ao fato deste paciente ser meu pai e da saudade natural que a situação impõe, como disse anteriormente, ele estava no melhor hospital e com os melhores profissionais e se tratava de um paciente grave. Mas, sem dúvida, talvez ele tivesse uma chance, se os processos hospitalares existissem… A falta de percepção do tempo/ gravidade e simplicidade na condução do caso, a ausência de uma liderança, um gestor médico, capaz de interferir diretamente na internação assumindo riscos ao decidir mais precocemente por uma terapêutica, impedindo procedimentos mais complexos sujeitos obviamente a maiores complicações e por fim punindo, dizendo não! Àqueles que não fizeram o que deveria ter sido feito, selaram seu prognóstico. Atitudes médico-administrativas como as sugeridas, poderiam modificar o quadro geral da assistência pública e privada deste país. Não basta ter os equipamentos necessários, a melhor hotelaria, o povo mais adestrado a dizer sim… Se tudo isso não for direcionado eficientemente para salvar vidas. Não se consegue isto apenas com auditorias unilaterais, nem com os melhores profissionais, nem com muito dinheiro… Só se consegue isto modificando a cultura de pessoas envolvidas no cuidado médico hospitalar, que esteja voltada para a verdade como premissa e no melhor resultado como finalidade.
Por hora, enquanto não conseguimos mobilizar todos os implicados neste processo deixo minhas sugestões aos leitores:
1) Não escolham médicos ou hospitais pela marca. Tenham a certeza que isto só reflete a posição deles, que não é isenta!
2) Escolham primeiro o médico gestor e paguem por este profissional, pois seu plano de saúde não cobre!
3) Não confiem em indicadores isolados de qualidade (tema do nosso próximo assunto), ou em estruturas com muita divulgação na mídia, pois devem estar alocando recursos no lugar errado!
4) Procurem hospitais com o melhor corpo de enfermagem, pois em última análise são elas que cuidarão de você! Aquelas equipes que sabem do seu problema e se interessam por você, transmitindo seus problemas e cuidados para o próximo plantão.
5) Não assuma o seu próprio caso nem o de parentes próximos, ninguém merece isso…
6) Tenha compaixão com os profissionais que estão cuidando de você, pois isto irá atenuar a sua dor…

Como acreditar numa intervenção? Jesinho e a limonada Suíça.

Jesinho estava gripado e foi orientado pela sua mãe a tomar uma limonada. No caminho da escola para casa viu 2 barracas: uma de limonada e mais adiante outra de limonada Suíça. A primeira custava R$ 1,00 enquanto a segunda R$ 1,70. Como só tinha 1,50 no bolso optou pela primeira. No dia seguinte, ainda não melhor da gripe, decidiu tomar a Suiça, pois, Pedrinho, o dono da segunda barraca, disse que a concentração de vitamina C da Suíça era muito maior, por isso melhor para saúde. No terceiro dia já melhor, levou para a escola sua tese: a limonada Suíça do Pedrinho é melhor para a gripe! Na semana seguinte Quinzinho vendo seu concorrente ter a preferência da garotada, decidiu vender limonada Suíça também… E para não perder os clientes que já tinha manteve o preço de R$ 1,00 pela limonada, agora Suíça. Como saber:

1) Se a limonada suíça é de fato melhor para a saúde que a limonada comum. Ou se é a limonada Suíça do Pedrinho.

2) Se de fato foi a limonada que curou a gripe do Jesinho, ou se foi uma evolução natural da enfermidade. A gripe em média pode durar 3 dias mesmo.

3) Se o preço que Pedrinho cobrava pela limonada suíça não estava muito elevado, deixando-o rico explorando podres alunos, sem ter que bisbilhotar a vida dele.

Estas questões permeiam muitas situações que vivemos: desde a opção por uma terapêutica, a escolha por um modelo melhor de gestão.

Estabelecer uma relação entre causa e efeito entre uma intervenção (as limonadas) e um desfecho (a saúde de Jesinho e da garotada), é sem dúvida fator crucial, para justificar, sua escolha. Para discutirmos esta relação de causalidade encontramos no clássico texto de Sir Austin Bradford Hill, professor emérito de estatística médica da universidade de Londres, as melhores sugestões e respostas. Diferentemente da idéia de associação, causalidade tem uma relação imediata e direta ao contrário da primeira que pode ser remota e indireta. Analisando de outra forma o efeito deve ser intenso o suficiente para chamarmos esta relação de causalidade ( a limonada foi a causa da melhora da gripe). Desta forma a cadeia completa de eventos que levaria a mudanças no estado gripal do Jesinho, poderia até permanecer não revelada (como os cuidados da mãe, tempo de sobrevida do vírus, boa alimentação, repouso…), mas a limonada Suíça teria uma importância diferenciada ao compararmos os resultados gerais (incluindo os históricos) contra os resultados após a introdução da limonada Suíça. Para atribuímos real valor a esta intervenção não podemos deixar de comentar os critérios que Hill elencou como importantes para se atribuir causalidade, tornando a limonada Suíça recomendável:

1)                           Força de associação. Esta forma de análise não tem haver apenas com os fatores de exposição (limonada Suíça) capazes de modificar um objeto (sujeito, Jesinho gripado), mas também com a quantidade de pessoas não expostas ao suco que tiveram ou não melhora da gripe. Para tal seria necessário escolher bem estas pessoas (amostra), de modo a colocá-los numa mesma linha de largada (linha de base) para que nenhum grupo saia na frente com muitas diferenças (critérios de inclusão). Observar outros elementos (variáveis) que poderiam tornar um grupo mais resistente ou frágil que outro (os cuidados da mãe, o tempo de enfermidade, a idade e gravidade da doença…). Estabelecer bem o critério de cura (desfecho). E finalmente comparar os 2 grupos (podendo usar métodos estatísticos ou não).

2)                           Consistência. Para Hill respostas repetidas observadas numa variedade de situações, diferentes técnicas expressas prospectiva ou retrospectivamente são importantes para a atribuição causal. Outras análises envolvendo diferentes enfermidades, em barracas diferentes, com pessoas diferentes ou em momentos diferentes. Análises de casos e controles, coortes, ensaios clínicos, estudos translacionais ou ainda técnicas qualitativas como grupo focal, inquéritos em profundidade… Poderiam não só demonstrar a validade da limonada suíça como revelar outra variável importante nesta situação.

3)                           Especificidade. Aqui postula-se o fato de que além da limonada ter melhorado as condições de saúde dos alunos daquela escola, a gripe foi quase extinta naquele verão em contraposição a uma melhora menos enfática de outros problemas de saúde. Parecendo haver um tropismo da limonada para esta enfermidade, a gripe.

4)                           Temporalidade. É a associação linear temporal que notamos entre a ingesta da limonada e a melhora do Jezinho. Aqui devemos ter um cuidado. Desfechos com processos (períodos de latência) muito arrastados. Gripes já presentes e não claramente identificadas ou já melhoradas, não saberemos se a limonada curou a gripe ou se a melhora da gripe fez Jesinho procurar limonada. Neste caso o aconselhamento da mãe sugere que a limonada antecede a melhora da gripe.

5)                           Gradiente biológico. O fato de tomarmos mais limonada ou a Suíça, batida com a casca do limão, mais concentrada, aumentaria a velocidade ou o número de casos de resposta do organismo em direção a cura. O aumento da dose com conseqüente aumento da resposta sugere causalidade.

6)                           Plausibilidade. Depende do conhecimento anterior, do reconhecido mecanismo de ação da intervenção. No caso aqui a vitamina C é um potente estimulador da imunidade. Atenção! Nem tudo que funciona é conhecido o mecanismo de ação!

7)                           Coerência. Nossa interpretação não deve conflitar seriamente com nosso conhecimento prévio. Neste caso se soubéssemos que limão faz mal a saúde deveríamos procurar outra causa da melhora do Jesinho ou nem perder tempo algum em estudar o assunto.

8)                           Experimento. Ver de fato se medidas preventivas relacionadas afetam a freqüência de associação. Se dermos limonada para todo mundo, poderá haver diminuição dos casos de gripe. Mas cuidado, algumas medidas além de muito custosas, podem não ser muito seguras!

9)                           Analogia. Último e menos importante fator para sugestão de causalidade, nono colocado na hierarquia de Hill. Experiências anteriores podem ser usadas para sugerir causalidade. Neste caso há 5 anos atrás havia um fato: muito menos ausência por gripe quando a merenda escolar oferecida era somente uma cestinha de frutas.

Por fim, após realizados os trabalhos seguindo estes princípios, observaram que a limonada de fato teve uma ação preventiva nas gripes escolares. Que a Suíça do Pedro era a única que realmente melhorava a saúde. Descobriram mais tarde analisando os processos do Quinzinho que sua limonada era feita sem lavar os limões antes de batê-los no liquidificador, com corante artificial para suprir a ausência substancial da fruta e finalmente chegaram a conclusão que a Suíça da barraca do Pedrinho era quase de graça, saúde total por apenas R$ 1,70!

P.S.: A barraca do Quinzinho continuou aberta e fazendo concorrência a do Jesinho. Seus amigos continuavam a comprar a sua limonada, sem olhar para a do Pedrinho. Aqueles que não conheciam os estudos da escola e os que gostavam do gosto de corante também iam na primeira barraca que avistavam…

Risco X Impacto e a Gincana Escolar

Como avaliar se medidas de governo são efetivamente responsáveis pelo desenvolvimento das pessoas? Se diminuem ou aumentam o acesso? Como decidir pelo investimento? Qual a diferença entre risco e impacto de uma ação?

De forma similar pudemos identificar esses problemas na gincana proposta pela Dona Noca, diretora da escola das Matrizes, no verão passado, cuja pretensão era melhorar o desempenho dos alunos submetendo-os a um difícil concurso no qual a escola seria classificada dentro de um ranking de qualidade internacional.

A competição resumia no seguinte: os estudantes deveriam escolher 2 propostas que melhorassem o desempenho escolar. Executadas, aquela que desse melhor resultado seria implantada definitivamente pela direção da escola.

Eleitas as propostas! A de Hugo consistia em melhorar a cantina colocando ar condicionado e um projetor de filmes 3D para os estudantes. Guilherme propôs  reformar a biblioteca dando acesso irrestrito a todas as bases de dados do mundo. Para a avaliação das mesmas antes da consolidação final da proposta vencedora, firmaram-se contratos temporários com uma casa de entretenimento e com a biblioteca nacional que também era próxima da escola. Os resultados seriam aferidos pelas notas nas provas, associando cada grupo de alunos com desempenho A ou B. Os que escolheram o projeto do Guilherme, a biblioteca, não podiam freqüentaram o projeto do Hugo na cantina e vice versa. O desempenho A correspondia as notas acima de 7 e o resultado B de 5 e 7 pontos, as notas abaixo de 5 não foram computadas. O colégio rachou! Contato zero, entre os grupos até o término da avaliação com a exposição dos resultados:

  Desempenho A Desempenho B
Projeto Guilherme 30 669
Projeto Hugo 10 413

A tabela acima de cara sinalizou que havia mais alunos com resultado A e B no grupo da biblioteca que no grupo da cantina. Isto só sinalizava a fragilidade do projeto do Hugo em relação ao do Guilherme, uma vez que ambos os desempenhos foram menores para este projeto. Isto nos parecia lógico uma vez que os problemas pedagógicos daquela escola de classe média alta do Paraná não se encontravam num verão escaldante, menos ainda na falta conhecimento que programas em 3D pudessem acrescentar. A discussão entre os alunos foi elevada e as acusações não faltaram… O projeto G não privilegia a qualidade de vida dos estudantes! O Guilherme é gay!? Lugar de gordo é na cantina…

Pacificado os ânimos, Dona Noca calculou o risco relativo. Mas o que é o risco? É uma medida de força associação (hierarquia primeira nos critérios de Hill sobre causalidade – texto Jesinho e a limonada suíça) usada para julgar se uma associação pode ser chamada de causal. Estima a magnitude desta associação.

O projeto do Guilherme aquele com plausibilidade obteve um força na associação, um risco, bem maior para desempenho A (30/10 = 3) do que para o desempenho B (669/413 = 1.60). Lembremo-nos que o desempenho A é aquele que interessava a diretora para o concurso internacional.

Isto significa dizer que deveríamos investir no projeto do Guilherme? Afinal assinaturas com todas as bibliotecas do mundo custam uma “grana preta” e para tal deveríamos ter certeza de que isso teria um impacto relevante. No mínimo que atingisse os objetivos propostos pela escola. O impacto, uma vez assumida que a associação é forte, ou seja, uma das causas significativas do efeito – desempenho A, reflete o número de estudantes, que podem ter o melhor desempenho com esta iniciativa. Ou seja, (30-10) 20 estudantes com desempenho A, contra (669-413) 256 com desempenho B poderiam ser beneficiados. O fato que tal medida beneficiaria muito mais estudantes com desempenho B que com A, não aproximava o projeto do objetivo da diretora. Apesar de uma melhora de 200% (R=3) no desempenho A contra 60% (R=1.6) do desempenho B, em relação ao projeto da cantina, o impacto sobre 20 alunos apenas, não atingiria a meta necessária para obtenção do certificado internacional, definido em 40% mínimo dos alunos com desempenho A. Sim, toda a escola teria de participar do concurso. Estes 20 alunos não representavam 1% do total de alunos da escola. Mesmo que o projeto da biblioteca tenha de fato elevado o número de alunos com desempenho B e este impacto, 256 alunos, ser bem mais significativo, isto não classificaria bem a escola aos olhos do certificado internacional.

É óbvio que os protestos se intensificaram, agora os partidários do Hugo e do Guilherme se juntaram e exigiram da diretora Noca o investimento na biblioteca. Os pais de alunos ameaçaram retira-los da escola. A diretora cedeu… A escola foi rebaixada na avaliação internacional. Em um ano com o estigma da desclassificação, perdeu alunos, teve que dobrar a mensalidade para manter os serviços, perdendo mais alunos… Ao final de 2 anos a escola das matrizes foi comprada por sua concorrente o colégio João de Barro, cujo diretor foi logo dizendo: Gincanas são proibidas pela instituição!

O dilema. Ser acadêmico ou empresário, eis o viés de seleção!

A meu ver este é o conflito mais comum do trabalho em empresas de todos os tipos. Objeto de divergências persistentes entre empregadores e empregados, alunos e professores é um grande entrave na execução de tarefas. Nosso duelo começa na universidade… Cláudio Maurício era um estilista talentoso, aluno aplicado e mente brilhante. Eis aí a primeira grande diferença:

1) Mente. Assim como entendiam os faraós sua mente era dividida entre necessidade e razão. Metade empresário, metade acadêmico. Seu lado empresário valorizava as notas, o resultado enquanto o outro se preocupava com o aprendizado, discursos mínimos e máximos em permanente conflito.

Por méritos conseguiu estágio entre figuras internacionais. Discípulo do rei da moda sua fidelidade e respeito pelo chefe era notável! Comportamento cordial e senso crítico aguçado logo recebeu convites para expor sua própria grife, quando veio seu primeiro conflito moral:

2) A ética. Nesse momento falou mais alto seu lado empresário. Para acadêmicos a ética muitas vezes é confundida com fidelidade, submissa a uma hierarquia difícil de romper. A hierarquia do pensamento. Para empresários os conflitos éticos só importam se influem diretamente no resultado, sua natureza é terminal e neste caso a oportunidade parecia promissora.

Montar uma equipe foi seu primeiro grande desafio. Prevalecendo seu lado acadêmico:

3) As variáveis. Trabalhou todas as variáveis possíveis, selecionou a melhor amostra entre costureiras e modelos, a mais homogênea possível, criando uma equipe que mais tarde seria reconhecida como a elite da moda. O melhor método de análise. Foco no caminho.

O estresse era total! Estávamos às vésperas da São Paulo Fashion Week, todos os detalhes já haviam sido pensados. Seu primeiro desfile tinha de ser um sucesso, investiu todos os recursos de sua família neste momento. Era tudo ou nada!

4) O risco. Para acadêmicos não passa de uma medida de associação. Mas para empresários é um lugar onde colocam suas vidas. Sua visão futurista não repousa em probabilidades, mas na intuição.

Mas, sempre mas… Algo o incomodava. Faltavam alfinetes! Seu lado acadêmico o fez tropeçar. Como fariam os acabamentos de último momento?

5) A variável de confusão. A contratação de muitos caciques e nenhum índio. O discurso máximo o fez esquecer do elementar. Um Office boy! Aquelas costureiras de ponta preocupadas com o ponto esquecer-se da agulha. Esta variável é aquela que aliada das costureiras (a agulha) poderiam modificar o resultado do desfile, inviabilizando o reconhecimento e esforço da equipe.

Seu lado empresário teria de salva-lo!

6) A velocidade. A necessidade maior que a razão, urgenciando tudo que encontram pela frente, passo a passo, superou mais essa dando uma gorjeta vultosa para o manobrista comprar as agulhas em seu carro. Acostumados a evoluírem em saltos depois de longos períodos de introspecção, a velocidade de acadêmicos são como o flash de uma máquina com pouca bateria. Intelectuais, sofrem com detalhes do dia a dia. Curiosamente apesar de estilista, para não ter que se preocupar com o que teria de vestir, Clássio, como era conhecido popularmente, tinha em seu guarda roupa vários ternos absolutamente iguais…

Com as meninas prestes a entrar na passarela, de repente um ruído e um grito… Santíssima! Ao ver sua principal modelo resvalar num prego acarretando num pequeno corte no seu vestido, Clássio desencarnou! Suas auxiliares desmaiaram, o pânico foi geral, era gente estirada pelo chão pra todo canto… Ao acordar exclamou: eu te amo, minha Deusa! Ninguém entendeu nada… Aquela gente começou a se levantar como se nada tivesse ocorrido, quando de repente Clássio pegou a top model pelo braço e terminou o estrago que o prego havia começado… Voltaram todos para o chão, enquanto o “louco” continuava a rasgar as roupas das demais. O silêncio era estarrecedor…

7) O viés de seleção. Foi desencarnado que teve um insight: roupas rasgadas eram o detalhe que faltava. O desfile veio a sua cabeça seu lado acadêmico revelou o viés e o empresário o pôs em prática. Afinal o que é a moda se não um viés de seleção: o ilógico, o esquisito, o que espanta, o que foge ao comum é também aquilo incrementa o resultado. E resultado é dinheiro…

O desfile foi um sucesso! Convites para lecionar, palestrar, transmitir sua expertise não faltaram… As encomendas inúmeras, maiores que a capacidade de produção colocavam aquelas costureiras perfeccionistas num cai-cai histérico insuportável. A pressão foi aumentando e Cláudio Maurício teve de decidir: adoecia e vendia ou ensinava e não comia…

8) O sonho. Onipotente, o sonho do acadêmico é ser ele verdade. Perseguem a verdade universal, selecionando o real, o comum em busca do invisível… Para o empresário e não menos onipotente, seu sono é ser o primeiro. O primeiro a colocar seu produto no mercado: Modess, Xerox… Procuram pela verdade focal selecionando o diferente, o surreal em busca do visível… Ambos querem reconhecimento!  Serem amados.

Como que dois perfis tão diferentes podem coexistir numa mesma pessoa? Da mesma forma que a mente coexiste num cérebro. Clássio utilizou-se de um e de outro e talvez esta possa ser a fórmula do seu sucesso. Mas… Há sempre um porém!  A idade avançava, o amor crescia a paixão esmilinguia… Anos mais tarde… Clássio foi encontrado num templo budista… Recitando mantras em busca da iluminação.